sábado, 15 de maio de 2021

Como se diz "você me ama" em tupi? (E algumas outras conjugações...)

Anteriormente, contamos como se diz "eu te amo" em tupi. Vejamos agora como se diz "você me ama":


Xe raûsub îepé!

"xé-raussúb-yepé"
/ʃɛɾawsuβjɛpˈɛ/

Transcrição fonética digitada com
 https://www.lexilogos.com/keyboard/ipa.htm.
Fonte:
Curso de Tupi Antigo
Lemos Barbosa



No Curso de Tupi Antigo, de Lemos Barbosa, temos a escrita a seguir:


xe r-aûsub îepé

xe + r + aûsub + îepé
(me + conjugação de 2ª pessoa + verbo amar + tu)

me amas tu
tu me amas
você me ama

Ouça:





Alguns autores gostam de usar o hífen para separar as desinências das conjugações (neste caso, r) dos radicais dos verbos (neste caso, aûsub), para fins didáticos principalmente. A forma îepé para "tu" é usada especificamente para o caso de o objeto ser a primeira pessoa ("tu me..."), assim como o prefixo oro é usado para o caso recíproco ("eu te...").


oro-aûsub
eu te amo


As formas que nos pareceriam mais naturais, "nde xe raûsub" para "tu me amas" e "xe nde raûsub" para "eu te amo" (conjuga-se com a inicial r quando o objeto é "te" ou "me"), soariam como algo diferente, tipo "tu amares-me / você me amar" e "eu amar-te / eu amar você", e, mesmo assim, ainda faltaria um "a" final para ficar que as frases ficassem corretas: "nde xe raûsuba" e "xe nde raûsuba". Verbos como "îuká" (matar), cujo radical não termina em consoante, dispensa essa terminação: "xe nde îuká" (eu te matar) e "nde xe îuká" (tu me matares / você me matar), com perdão do exemplo.

Para voltarmos ao verbo "amar", vejamos alguns outros exemplos que mostram que a conjugação do verbo depende tanto do sujeito quanto do objeto:


asaûsub
a-s-aûsub

eu o amo / eu a amo / eu os amo / eu as amo


eresaûsub
ere-s-aûsub

tu o amas / tu os amas / tu a amas / tu as amas


osaûsub
o-s-aûsub

ele o ama / ele os ama / ele a ama / ele as ama



îasaûsub
îa-s-aûsub

nós o/a(s) amamos
(neste caso, "nós" inclui a pessoa com que se está falando)


orosaûsub
oro-s-aûsub

nós o/a(s) amamos
(neste caso, "nós" não inclui a pessoa com que se está falando)


pesaûsub
pe-s-aûsub

vós o/a(s) amais
popularmente, "vocês amam ele(a)(s)"


osaûsub
o-s-aûsub

eles o/a(s) amam


re r-aûsub
ele(a) me ama, eles/elas me amam


nde r-aûsub
ele(a) te ama, eles/elas te amam


îandé r-aûsub
ele(a) nos ama, eles/elas nos amam

Aqui, "nos" inclui o interlocutor.
Populamente, "ele(a) ama a gente".


oré r-aûsub
ele(a) nos ama, eles/elas nos amam

Aqui, "nos" não inclui o interlocutor.
"Ele nos ama, mas não necessariamente ama você."


pe r-aûsub
ele vos ama, eles vos amam


re r-ausub îepé
tu me amas; ama-me tu


oré r-aûsub îepé
tu nos amas; ama-nos tu


 xe r-ausub peîepé
vós me amais; amai-me


oré r-ausub peîepé
vós nos amais; amai-nos


xe nde r-aûsuba
amar-te


Esses e outros exemplos são apresentados e explicados no livro de Lemos Barbosa (Curso de Tupi Antigo), disponível gratuitamente em http://www.etnolinguistica.org/curso.

domingo, 9 de maio de 2021

Como dizer "casa" em tupi?

Casa em tupi é "oka". A palavra deu origem à palavra "oca" em português, que designa as moradias típicas dos indígenas, especificamente.

https://pt.wiktionary.org/wiki/oka#Tupi


A casa presidencial paraguaia chama-se Mburuvicha Róga, "casa do chefe" em guarani paraguaio.


Em tupi, língua irmã do guarani, o nome ficaria parecido:

Morubixaba Roka

morubixaba + r + oka
(chefe/cacique + [indica posse] + casa)

Casa do Chefe

A etimologia de "carioca" também está relacionada a casa. Eduardo de Almeida Navarro afirma que vem de "casa de carijó", e cita um poema do Padre Anchieta com tal expressão.

Kariîó oka
Kariîooka

kariîó + oka
(pessoa da etnia Carijó + casa)

casa de carijó


Não se usa aí a partícula indicativa de posse porque não é "casa do carijó" (de uma pessoa específica), mas "casa de carijó", de índios carijó de forma geral.

Também é bem comum encontrar como etimologia "casa de senhor" ou "casa de branco".


Karaíba oka

casa do senhor
casa do homem branco
casa do cristão


Karaiboka

casa de senhor
casa de homem branco
casa de cristão


Outra hipótese é "casa de karii" (outra etnia indígena antiga).

Para saber mais:

https://immub.org/noticias/qual-a-origem-da-palavra-carioca

https://www.estantevirtual.com.br/livros/eduardo-de-almeida-navarro/metodo-moderno-de-tupi-antigo

https://www.amazon.com.br/Dicion%C3%A1rio-Tupi-Antigo-Eduardo-Navarro/dp/8526019333

terça-feira, 27 de abril de 2021

Piracanjuba e pipoca: aglutinação de palavras em tupi

Piracanjuba é o nome de um peixe e significa "peixe da cabeça amarela". Também é o nome de uma cidade goiana e de uma marca de laticínios que surgiu nessa cidade.

piraakãîuba
 pirá + akanga + îuba
(peixe + cabeça + amarela)
piracanjuba




Pipoca é um certo tipo de milho com seus grãos estourados devido ao aquecimento. Em tupi, pipoka significa "pele estourada" ou "casca estourada".


pipoka
pira + poka
(pele + estouro)
pipoca


Pipoca.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pipoca, https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/09/Popcorn02.jpg


O acento na letra "á" da palavra "pirá" (peixe) indica que essa letra faz parte do radical. Por outro lado, nas palavras "pira" (pele), "akanga" (cabeça), "îuba" (amarelo) e "poka" (estouro), a vogal final "-a" não faz parte do radical da palavra, mas é um sufixo, uma desinência de substantivo. Em alguns casos, a palavra pode ser usada sem essa desinência.


îub: ser amarelo
îuba: amarelo

Xe aîub.
Sou amarelo.
O a- indica a conjugação em primeira pessoa.

pok: estourar
poka: estouro


Deste modo, a formação das palavras piracanjuba e pipoca podem ser melhor descritas assim:


piraakãîuba
 pirá + akang + îub + a

pipoka
pir + pok + a



AGLUTINAÇÃO


Assim, podemos estabelecer algumas regras práticas para aglutinar palavras em tupi:


1. Escolha as palavras que quer usar. 

pirá + akanga + îuba
(peixe + cabeça + amarela)

pira + poka
(pele + estouro)

2. Elimine as letras "a" do final das palavras, exceto quando for o "á" tônico.

pirá + akang + îub
(peixe + cabeça + amarela)

pir + pok
(pele + estouro)

3. Junte tudo.

piráakangîub
(peixecabeçaamarela)

pirpok
(peleestouro)

4. Em cada encontro consonantal, deixe apenas a última consoante do grupo (considere as semivogais î, û e ŷ como consoantes). Caso elimine uma consoante nasal, coloque um til na vogal que a precede.

piráakãîub
(ser um peixe de cabeça amarela)

pipok
(estourar a pele)

6. Se a sua palavra agora termina com consoante, provavelmente parece mais um verbo. Se quiser que seja um substantivo, acrescente "-a" no final.

piráakãîuba
(peixecabeçaamarela)

pipoka
(peleestouro)


Capoeira e tupi


Pintura "Jogar Capoëra - Danse de la guerre", de Johann Moritz Rugendas. 
Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/19/Rugendasroda.jpg


Existem várias hipóteses para a origem do nome "capoeira" do jogo-luta-dança brasileiro. Eis algumas delas:


quarta-feira, 31 de julho de 2019

Como dizer "Obrigado!" e "De nada!" em tupi?


Aûîé!
Obrigado!
(ou "Está bem!")

Xe moapysyk!
De nada!
(Lit. "Me agradou!", no sentido de "Agradou-me tê-lo ajudado!". Aparentemente uma adaptação de Emerson da Costa.)


Fonte: Emerson José Silveira da Costa, que dá maiores explicações sobre as expressões encontram-se em http://abanheenga.blogspot.com/2016/08/expressoes-usuais.html.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Como dizer "conhecimento" e "ciência" em tupi?


De acordo com Leonardo Boico, o Vocabulário na Lingoa Brasílica traz a seguinte palavra como "o saber, o conhecimento das coisas":

mba'ekûaba
 mba'e + kûaba
(coisa(s) + saber )

conhecimento


Ouça:




Uma construção moderna acrescenta o sufixo "eté", resultando em algo como "realmente saber das coisas", que poderia distinguir o caráter mais formal da Ciência Moderna em sua busca por conhecimento verificado experimentalmente:

mba'ekûabeté

mba'e + kûab + eté
(coisa(s) + saber + realmente)

ciência

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Como dizer "Bom dia!" e "Olá!" em tupi?

Esses dias eu estava pensando que temos dois tipos de bom-dia no Brasil. Se você diz isso ao chegar, está dizendo algo parecido com "Que dia bonito está hoje!", mas, se o diz ao sair, está mais para "Tenha um bom dia!".
Assim, eu sugiro que se diga, em tupi, ao chegar,

'Aporanga!
Dia bonito!
(contração obrigatória de 'Ara poranga!)





e, ao sair,



Nde 'ara t'i porang!
Que teu dia seja bonito!
(contração obrigatória de Nde 'ara ta i porang! lit. "Seu dia que ele [seja] bonito!")




ou



Nde 'ara t'e'ikatu!
Que teu dia mostre-se bom!
(contração de Nde 'ara ta e'ikatu! lit. "Seu dia que mostre-se bom!") 


No entanto, essa é uma adaptação atual do tupi clássico, ou seja, o que chamo de tupi brasileiro. Pelo que se sabe, os tupis antigos não diziam "bom dia". Para cumprimentar, os homens diziam o nome da pessoa e "gûé", enquanto as mulheres usavam "îú". Exemplos: 

Abá gûé!
Olá, pessoal!
(falado por homem)


Abá îú!
Olá, pessoal!
(falado por mulher)

Essas partículas também marcam o vocativo de forma geral. Se você coloca o nome da pessoa seguido de uma delas no meio da frase, é como se você estivesse dizendo "ó Fulano" (ou sem o "ó" e entre vírgulas para uma tradução menos formal). Exemplos:

 
Pá, xe irũ-etá gûé!
Sim, ó meus companheiros!
Sim, meus companheiros!




 
Tupã, Tupã gûé!
Deus, ó Deus!
Deus, meu Deus!



 
Anna Júlia gûé!
Ô Anna Júlia!


No nhengatu, o tupi moderno ainda falado nativamente na região Norte e que serve de fonte de vocabulário para o tupi brasileiro, temos:

Bom dia: puranga ara, yané kwema, kwema yandé.
Boa tarde: puranga karuka, yané karuka, karuka yandé.
Boa noite: puranga pituna, yané pituna, pituna yandé.

Fonte: Neh Jes, Francisco Silva. In Língua Brasílica - Tupi, Guarani e Nheengatu (grupo Facebook).